Congo capixaba da zona rural atravessa gerações e imortaliza João Bananeira

João Bananeira mora no alto do Morro Boa Vista. Mora também no imaginário da população de Cariacica, no Espírito Santo, e no centro de uma das tradições mais importantes do estado capixaba. O personagem é o mais representativo do Congo de Máscaras em Roda D’água, região próxima ao Monte Moxuara, mais famosa formação de relevo da cidade.

A congada é uma manifestação bastante tradicional do Espírito Santo, com reprodução em outras regiões do Brasil. A cultura, porém, é cheia de peculiaridades e tem características singulares naquelas montanhas. Do alto, João Bananeira estende os braços e convida para o batuque. As ondas sonoras ganham o horizonte.

João Bananeira do congo rural dá as boas vindas ao espaço de cores e batuques.

João Bananeira do congo rural dá as boas vindas ao espaço de cores e batuques. (Foto: Rafa Yamamoto)

De máscara, coberto de folhas secas de bananeira e retalhos de tecido, João carrega simbolismos seculares, mas são os tocadores de congo que mantêm a lenda viva. Com poucos instrumentos, eles contam a história daquela cultura e fortalecem a identidade capixaba.

O som do tambor é o mais presente. As batidas são ritmadas e uniformes, aumentam a velocidade conforme o desenvolvimento da música e as mãos mostram-se habilidosas sem jamais se esbarrarem na rápida troca de batucadas. Elas são comandadas pelos irmãos Nascimento, Dinho e Nilceir, sentados por cima dos tambores, que possuem uma espécie de pedal para apoio dos pés. Os dois instrumentos ficam em um lugar reservado no pequeno palco, uma espécie de altar ao tamborilar.

Mestre Prudêncio dita o ritmo da congada aos filhos. (Foto: Rafa Yamamoto)

Mestre Prudêncio dita o ritmo da congada aos filhos. (Foto: Rafa Yamamoto)

O comando dos ritmos, no entanto, fica a cargo do Mestre Prudêncio, velho congueiro e pai dos meninos aos tambores. Ele balança a munheca na tocada do ganzá. Vez ou outra, ele saca o apito, único instrumento de sopro que entra na dança de sons.

PERSONAGENS DO CONGO:

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Em estonteantes rodopios, Walter Lima tem nas mãos uma casaca. O instrumento é mais uma singularidade do congo tocado naquela região rural. Trata-se de uma espécie de reco-reco. “É sua versão feminina”, define o tocador. O som da casaca produzido pelo atrito da vareta de madeira com as pequenas ondulações é idêntico ao seu ‘parceiro masculino’. A distinção está em uma carranca esculpida na parte superior.

O instrumento é segurado pelo pescoço da imagem e não se trata de mera coincidência. “A casaca só foi introduzida ao congo depois, tem muito dessa influência afro-indígena. Os escravos usavam a imagem do senhor de engenho na carranca e tocar a casaca era como enforcá-lo, uma atitude de revolta mesmo”, explica Walter.

Casaca se junta aos tambores. Ela é o instrumento peculiar que difere o ritmo do Congo de Máscaras na região do Moxuara. (Foto: Rafa Yamamoto)

Casaca se junta aos tambores. Ela é o instrumento peculiar que difere o ritmo do Congo de Máscaras na região do Moxuara. (Foto: Rafa Yamamoto)

A história da localidade e a música do congo são indissociáveis. Mistura religiosidade, revoltas e festejos. A região serrana em torno do Moxuara fora ocupada pela agricultura com mão de obra escrava antes da abolição no Brasil e palco da Insurreição do Queimado, em São José dos Queimados. O levante é um marco importante na história capixaba.

Os escravos participaram da construção de uma igreja na região com a promessa de que receberiam alforria terminada a obra. Durante a edificação eles fortaleceram os laços com a religião católica, com devoção especial a Nossa Senhora da Penha, a quem Frei Gregório dedicava longos discursos e relembrava o processo de liberdade ansiado pelos trabalhadores. O religioso abolicionista, todavia, nada combinou com os donos dos escravos. Quatro anos depois da colocação da pedra fundamental do templo religioso, pedras voaram contra os senhores de engenho e as serras passaram a abrigar também os quilombos.

O clima de tensão abria trégua na época do carnaval, quando os festejos tomavam conta da região. Os negros, escravos ou fugidos, não queriam ficar de fora e adotaram máscaras para participarem da folia sem serem reconhecidos. Eles se fantasiavam em meio às plantações de bananas, muito características, e a partir dessa história o personagem João Bananeira vai ganhando formas e lendas. Como todo folclore, tem suas versões adjacentes, mas certa é a importância cultural de tal figura.

O Congo de Máscaras em Roda D’água também tem influencia indígena caracterizada principalmente pela adoção da casaca. “Os indígenas tinham instrumentos parecidos com a casaca, isso é uma coisa que diferencia a congada daqui das outras”, acrescentou Walter Lima, ajeitando os óculos ao melhor estilo Jorge Ben Jor.

A vida de Walder Lima deu rodopios como os que ele gosta de ensaiar na dança, mas foi no solo de Cariacica que seus pés estacionaram. (Foto: Rafa Yamamoto)

A vida de Walder Lima deu rodopios como os que ele gosta de ensaiar na dança, mas foi no solo de Cariacica que seus pés estacionaram. (Foto: Rafa Yamamoto)

O espaço dedicado à prática do congo pela Cia Cumby abusa de cores diversificadas na decoração e de panos floridos. O colorido se mistura às máscaras espalhadas pelo espaço e que fazem referencia a tradição do Carnaval. Assim como tudo no local, elas são produzidas pelos congueiros. Eles usam jornais em torno de um molde e selam os papéis com cola retirada de uma planta local. As pinturas ficam a escolha do artista.