ROBERTO MENDES E AS TRADIÇÕES DO RECÔNCAVO BAIANO NA CASA BRASILEIRA

A Casa Brasileira inicia 2019 com um uma série de encontros musicais que trazem os diferentes ritmos da música brasileira. Entre os artistas que mostrarão na Casa seu olhar sobre a música e as raízes culturais brasileiras está o cantor, compositor, violonista e escritor Roberto Mendes.

 

 

 

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia, Roberto Mendes tem três décadas de pesquisas sobre a chula e o samba de roda, fruto do contato direto com os grandes mestres de saberes da região, trabalho expresso em vários discos já lançados e no livro “Sotaque em Pauta – Chula: o canto do Recôncavo baiano”, onde o artista e escritor fala sobre as “verdadeiras origens” do samba brasileiro e registra em DVD um show de chula e técnica do ritmo com violão e voz.

 

 

Na Casa Brasileira, nesta quinta-feira (10/01), Roberto Mendes vai cantar a chula e tocar seu violão como percussão ferida, que, segundo Mendes, “é a maneira que aprendi tocar com Sr. Tune, com os irmãos Frade e Tavinho, toco muito parecido com eles”. Junto com Roberto Mendes estará seu filho, Léo Mendes, também violonista, que herdou o jeito de dedilhar do pai e das influências que teve desde criança, em Santo Amaro da Purificação, quando descobriu o gosto pelo violão e pela música.

 

 

Antes de chegar à Casa Brasileira, Roberto Mendes conversou com a equipe do site do Instituto Mpumalanga e falou um pouco sobre sua vida e seu trabalho.

Mpumalanga:   O que significa para o músico Roberto Mendes ter nascido no Recôncavo, mais especificamente em Santo Amaro.

Roberto Mendes:  Para mim é especial porque nasci e ainda vivo aqui muito próximo das minhas matrizes, debruçado em minhas memórias.

Mpumalanga: Poderia contar como passou de professor de matemática a músico e se imaginava que sua produção musical iria enveredar pela antropologia da música?

Roberto Mendes:  Nunca saí da matemática, eu mudei de razão e me encontrei na música a partir da esperança matemática.

Mpumalanga: Você se dedica ao estudo da Chula, ritmo que surgiu no próprio Recôncavo. Porque a Chula é a origem do samba ou o samba antes do samba?

Roberto Mendes: Quero deixar claro que a Chula não é música, é comportamento traduzido em canção. São versos construídos em redondilha maior ou menor, que é natural da  língua, em canto de labor, no caso do Recôncavo, na lavoura da cana. Nos meados do século XIX, no fechamento da baía de Benin, vindo pra cá os sudaneses, passando pela Ilha da Madeira, trazem as duas violas: machete e 3/4, que se encontram no Recôncavo com o batuque, aqui existente há 200 anos, ou seja, o cabula. Nesse encontro nós temos um canto violado que deu origem à Chula. 

Mpumalanga: O que diferencia a Chula do samba tal qual se consolidou no Brasil?

Roberto Mendes:  O rito. Existe todo um ritual para que aconteça a Chula. Por exemplo: a mulher só pode sambar quando a viola toca, todo canto é feito enaltecendo a beleza da mulher e por aí vai, enquanto que o samba é festa, agitação, como a própria palavra diz em umbundo (língua bantu).

Mpumalanga:   Essa herança musical de raízes africanas corre o risco de desaparecer?

Roberto Mendes: Não acredito, não vejo cultura como arte, que tem prazo de validade. Vejo a cultura como rio sem cais.

Mpumalanga: Como fazer com que as tradições musicais que vieram antes do samba cheguem até as escolas e sejam preservadas?

Roberto Mendes: Acho que deveria ser o contrário, as escolas deviam ir em busca da cultura e cultura se faz nas ruas, respeitando os costumes de um povo e a oralidade. Escola quer forma pra justificar a razão acadêmica, cultura é mistério.

Mpumalanga: Quando você leva a chula, o samba de roda ou o ijexá do Recôncavo da Bahia para outras regiões do Brasil, para um público pouco acostumado com esses ritmos, qual sua expectativa?

Roberto Mendes: A expectativa da novidade. É sempre tão novo pra mim quanto pra quem vai me escutar. Mas o que me importa mesmo é que vou sabendo que vou voltar.

Mpumalanga: Você está preparando um novo disco. Como será esse trabalho e qual a contribuição dos seus filhos?

Roberto Mendes:  É um disco de inventário. Um disco produzido pelos meus filhos, Leonardo e João, que é voz e violão como percussão ferida e um outro disco gravado com estrutura maior com meus filhos e a participação especialíssima de Tedy Santana.

Mpumalanga: Roberto, o que você mostrará no encontro musical “O Samba Antes do Samba”, que fará na Casa Brasileira, em São Sebastião, dia 10 de janeiro, juntamente com seu filho Léo Mendes?

Roberto Mendes: As variantes da Chula: xaréu, estiva, chula de cabaça, corrida, chula amarrada. Fazer uma grande festa.

 

FOTO: JORNAL A TARDE

Sobre a chula do Recôncavo

A chula é um canto ritual, onde homens e mulheres têm os seus papéis definidos. Na roda somente homens em pé tocam e um deles puxa o canto ao estilo de uma declamação. As mulheres entram na roda quando o “comandante” da chula concede a permissão. Na roda de dança, apenas as mulheres podem entrar, uma de cada vez, reverenciando os tocadores. Depois tudo se transforma numa festa. A parte litúrgica tem os homens como protagonistas exclusivos, que cantam nos desafios das duas parelhas: uma canta e a outra responde

 

 

Leo Mendes

Na quinta, dia 10/janeiro/2019, às 20h, a sala da música da Casa Brasileira receberá o cantor, violonista, arranjador ecompositor Roberto Mendes, acompanhado pelo filho, o violonista Leo Mendes.  Roberto Mendes é um mestre das pesquisas sobre as origens do samba e as tradições musicais do Recôncavo da Bahia. Em O Samba Antes do Samba, pai e filho farão uma aula cantada e vão tocar e cantar principalmente a Chula. Roberto Mendes explica que a Chula nasceu na região de Santo Amaro, terra natal dos dois músicos, está na origem do samba e é o encontro do batuque com a viola.

 

 

Discografia de Roberto Mendes
Cidade e rio (2008)
Tempos Quase Modernos (2005)
Flor da Memória (2003)
Tradução – Roberto Mendes & Convidados (2000)
Minha História (1999)
Voz Guia (1996)
Roberto Mendes (1994)
Roberto Mendes & Baianos Luz (1994)
Matriz (1992)
Flama (1988)

 

Em O Samba Antes do Samba, pai e filho farão uma aula cantada e vão tocar e cantar principalmente a Chula. Roberto Mendes explica que a Chula nasceu na região de Santo Amaro, terra natal dos dois músicos, está na origem do samba e é o encontro do batuque com a viola.

 

Serviço
Dia 10/janeiro – 20h | Roberto Mendes e Leo Mendes | O Samba Antes do Samba

LOCAL:   CASA BRASILEIRA  
Av. Dr. Altino Arantes, 80 – Rua da Praia |Centro| São Sebastião-SP |11 998388794.
Realização: INSTITUTO MPUMALANGA
Apoio: MULTCAR
Ingressos à venda na Casa Brasileira ou pelo Event brite
*Os eventos têm renda revertida para os projetos educacionais do Instituto Mpumalanga